Entrevista com a autora Mirian
Entrevista com a autora Mirian
1-O que te levou a escrever Não me calarei? Em que momento você sentiu que transformar sua vivência em livro era necessário?A dor vivida por mim e por minha família foi profunda e, por muito tempo, sufocante. Em um primeiro
momento, fui convidada a participar como coautora do livro Mulheres que Inspiram. Ao começar a escrever, percebi que a minha história não cabia em apenas um capítulo. Havia vivências, silêncios, feridas e superações que pediam espaço, voz e profundidade. Foi ali que entendi que precisava escrever um livro solo, e assim nasceu Não me calarei.Durante o processo de escrita, ao revisitar cada dor e cada detalhe da minha trajetória, passei a enxergar com ainda mais clareza a grandiosidade da presença divina em minha vida. Com ela, encontrei força para me curar e, sobretudo, para ajudar a curar outros, por meio do amor, da fé e da verdade. Escrever deixou de ser apenas um relato: tornou-se um ato de libertação, cura e propósito.
2-O título da obra é forte e direto. O que significa “não se calar” para você hoje, após a publicação do livro?Não Me Calarei é, de fato, um título forte, e hoje compreendo que ele vai muito além da minha própria história. Após a publicação do livro, passei a ouvir relatos profundos de outras mulheres que, ao final da leitura, me dizem: “Obrigada por escrever. Eu também não me calarei mais.”
Essas palavras me mostram que o livro se tornou um ponto de encontro entre dores silenciadas. Ele tem sido um abraço na alma de mulheres que, por muito tempo, permaneceram caladas por medo, vergonha ou culpa.
Hoje, “não se calar” significa romper o silêncio que adoece, dar nome à dor e transformar a própria história em caminho de cura, não só para si, mas também para outras. Meu livro é voz, é acolhimento e é coragem compartilhada.
3-Ao longo da narrativa, percebemos uma escrita marcada pela verdade e pela dor, mas também pela coragem. Como foi o processo emocional de revisitar essas experiências durante a escrita?
No início, foi extremamente doloroso. Ao revisitar essas experiências, cheguei a sentir no próprio corpo a intensidade das emoções lembradas com tantos detalhes. Em alguns momentos, meu corpo chegou a tremer enquanto eu escrevia.Com o passar do tempo e das releituras, algo começou a mudar. Li e reli os rascunhos diversas vezes, e aquilo que antes doía de forma aguda foi, aos poucos, se tornando mais leve. A escrita passou a agir como um processo de elaboração e cura.
Revisitar a dor não foi fácil, mas foi necessário. A cada capítulo, eu não apenas narrava o que vivi, eu ressignificava. E foi nesse movimento que a dor deu espaço à coragem, e a memória passou a caminhar junto com a paz.
4-Seu livro dá voz a muitas mães que vivem situações semelhantes, mas que ainda permanecem em silêncio. Que tipo de acolhimento você espera oferecer a essas leitoras?Sim, tenho recebido muitos relatos de mulheres — vítimas ou mães de vítimas — que passaram ou ainda estão passando por situações semelhantes. Quando comecei a escrever este livro, eu o imaginava como uma chama de luz: algo que aquece, ilumina e fortalece sem ferir. E ver isso acontecendo tem sido profundamente emocionante.
O acolhimento que desejo oferecer é, antes de tudo, o da escuta. Eu compartilho meu caminho, minha vivência e minhas escolhas, sempre respeitando o tempo, os limites e a dor de cada pessoa. Não há imposições, apenas presença, empatia e verdade.
Quero que essas mulheres saibam que não estão sozinhas, que sua dor é legítima e que existe um caminho possível, ainda que cada uma o percorra no seu próprio ritmo. Se o livro conseguir acender essa luz em meio à escuridão, ele já cumpriu seu propósito.
5-Não me calarei transita entre relato pessoal e denúncia social. Foi difícil encontrar o equilíbrio entre expor sua história e tratar de um problema que atinge tantas famílias?
Não foi difícil, porque a escrita nasceu muito clara dentro de mim. Eu sabia exatamente o ponto onde queria chegar e a forma como desejava abordar essa realidade. A narrativa fluiu de maneira leve, mesmo tratando de temas tão profundos, porque havia propósito em cada palavra.Eu poderia ter escolhido apenas me curar, ajudar minha família a se reerguer e seguir em silêncio. Mas, dentro de mim, ecoava um chamado maior — a vontade de fazer mais, de alcançar outras pessoas e outras famílias que vivem dores semelhantes.
Esse desejo não vinha da exposição pela exposição, mas de um amor que pulsava forte e insistia em transbordar. Eu compreendi que tornar minha história pública era, na verdade, um ato de entrega: transformar a própria vivência em força, esperança e coragem lançadas ao mundo.
6- Durante a escrita, houve algum trecho que você hesitou em publicar? O que te deu forças para seguir em frente?Sim, houve. Em alguns momentos, cheguei a escrever, parar, silenciar e depois voltar a escrever. A cada trecho mais sensível, vinha o peso da exposição e a responsabilidade de contar a verdade com o cuidado e os limites que ela exige, mas sem apagá-la.
Compreendi que a verdade precisa ser contada com a profundidade que lhe cabe. O que me deu forças para seguir em frente foi, sobretudo, o apoio da minha família. Eles não apenas permitiram a escrita, como me incentivaram a ser clara, honesta e fiel aos detalhes que eram essenciais para a compreensão da história.
Esse apoio foi fundamental. Ele me deu segurança emocional para evoluir na escrita e seguir adiante com coragem, sabendo que eu não estava sozinha e que aquela narrativa precisava existir exatamente como foi contada.
7-Como a maternidade transformou sua forma de enxergar o mundo e como essa transformação aparece na obra?A força de uma mãe é simplesmente inexplicável. O amor materno alcança lugares que a razão não explica e move decisões que só quem ama profundamente é capaz de tomar. A maternidade me ensinou a enxergar o mundo com olhos de possibilidade, de amor e de coragem.
Essa transformação aparece de forma muito clara na obra no momento em que decido não permitir que a dor me paralise. Ao contrário, escolho pegar as minhas feridas e transformá-las em denúncia, proteção e voz. O que poderia ter permanecido apenas como sofrimento íntimo se tornou um ato de cuidado, não só com os meus filhos, mas com tantos outros que precisam ser vistos e protegidos.
Ser mãe me ensinou que amar também é agir. E Não Me Calarei nasce exatamente desse lugar.
8- Que impacto você espera que o livro cause em leitores que nunca passaram por situações semelhantes às narradas, mas que agora terão contato com essa realidade?Espero que o livro desperte consciência, empatia e responsabilidade. Para quem nunca viveu situações
como as narradas, o contato com essa realidade pode ser um convite a enxergar além da própria experiência e a compreender dores que, muitas vezes, permanecem invisíveis.Desejo que esses leitores aprendam a escutar com mais sensibilidade, a acolher sem julgamentos e a reconhecer os sinais de sofrimento que, por vezes, estão mais próximos do que imaginamos. Que o livro provoque reflexão, quebre silêncios confortáveis e gere atitudes mais humanas.
9- Após lançar um livro tão íntimo e potente, o que mudou em você como mulher e escritora?Após lançar Não Me Calarei, algo em mim se reposicionou. Como mulher, me tornei ainda mais consciente da minha força, da minha voz e do impacto que a verdade pode ter quando é dita com amor e coragem. Aprendi que vulnerabilidade não é fraqueza, é um lugar de profunda potência.
Como escritora, passei a compreender a escrita não apenas como expressão, mas como missão. Hoje escrevo com mais responsabilidade, mais consciência e mais respeito pela história que me atravessa e pelas histórias que encontro pelo caminho. Entendi que palavras podem acolher, denunciar, curar e despertar.
Esse livro me transformou. Ele me ensinou que quando uma mulher decide não se calar, ela não muda apenas a própria história — ela abre caminho para que outras também encontrem voz.
10- Para quem ainda tem medo de falar, denunciar ou se posicionar, qual mensagem principal você gostaria que Não me calarei deixasse?
Que você não está sozinha. O medo existe, ele é real e compreensível, mas o silêncio prolongado machuca ainda mais. Não Me Calarei não é um convite à pressa, é um convite à coragem no tempo certo.
Falar, denunciar ou se posicionar não precisa acontecer de uma vez nem da forma que o mundo espera. Cada passo importa. Cada voz tem valor. Buscar ajuda, contar para alguém de confiança ou simplesmente reconhecer a própria dor já é um começo.
Que este livro seja um abraço e um lembrete: existe vida, dignidade e força depois do silêncio. E quando você decidir falar, no seu tempo, do seu jeito, haverá um caminho possível.





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