Entrevista com a autora Vanessa
Entrevista com a autora Vanessa
1 — O título da obra é bastante provocador. O que você entende por “terror” dentro da vida cotidiana e como essa ideia guiou a escrita do livro?
Entendo o “terror cotidiano” como as violências normalizadas que atravessam a vida de forma silenciosa, mas
profunda — como a pressão estética, a exclusão social e as desigualdades estruturais. São experiências que, embora naturalizadas, produzem medo, angústia e desgaste subjetivo. A escrita do livro partiu desse reconhecimento: observar o que parece comum e revelar o quanto isso pode ser opressor.
2 — Diferente do terror tradicional, a obra dialoga mais com o desconforto psicológico e emocional. Essa foi uma escolha consciente desde o início do processo criativo?
Sim, foi uma escolha consciente. O terror tradicional muitas vezes desloca o medo para o irreal ou o sobrenatural. Optei por trazer o medo de volta para o que nos cerca, para aquilo que reconhecemos no cotidiano. O desconforto psicológico nasce justamente dessa proximidade com a realidade.
3 — O livro trabalha com situações aparentemente comuns, mas carregadas de tensão. Por que explorar o medo a partir do cotidiano, e não do extraordinário?
Explorar o medo a partir do cotidiano é olhar a vida de frente. O extraordinário pode funcionar como distanciamento; o cotidiano, ao contrário, ilumina aquilo que nos atravessa diariamente e que muitas vezes preferimos manter na sombra.
4 — Em muitos momentos, o leitor se reconhece nas angústias e nos cenários apresentados. Você acredita que esse reconhecimento torna o terror mais eficaz?
Sim. Quando o leitor se reconhece, o terror deixa de ser apenas efeito narrativo e se transforma em crítica social. Esse reconhecimento cria uma ponte entre a experiência individual e uma inquietação coletiva, tornando a leitura mais potente.
5 — A narrativa provoca inquietação mais do que sustos imediatos. Que tipo de sensação você desejava deixar no leitor ao fechar o livro?
Inquietação. O susto é momentâneo; a inquietação permanece. É ela que continua acompanhando o leitor mesmo depois do livro fechado, provocando reflexão e desconforto.
6 — Há uma crítica social implícita ao longo da obra. De que forma a realidade contemporânea influencia o terror que você constrói na narrativa?
A crítica social antecede o terror. A partir dela, o terror se constrói como linguagem narrativa, não como fim em si mesmo. A realidade contemporânea, com suas desigualdades e violências simbólicas, orienta toda a estrutura da obra.
7 — Como foi equilibrar o aspecto literário com a carga simbólica e psicológica presente nos textos?
Esse equilíbrio aconteceu de forma orgânica. Priorizei o fluxo da escrita, permitindo que a dimensão simbólica e psicológica emergisse naturalmente, sem um esforço artificial de enquadramento literário.
8 — Existe algum conto ou trecho do livro que você considera mais representativo da proposta da obra? Por quê?
“O menino e o lixão” é o conto mais representativo da obra porque, ao mesmo tempo em que opera no plano alegórico, abre brechas diretas para a crítica das desigualdades sociais, sintetizando o eixo central do livro.
9 — Para leitores que não costumam consumir terror, o que O terror da vida cotidiana pode oferecer de diferente ou inesperado?
A obra oferece mais do que terror: crítica social, lirismo e fragmentos filosóficos. Nenhum conto se sustenta apenas
no medo; há sempre outra camada pulsante, que convida o leitor a refletir sobre a própria realidade.
10 — Depois dessa obra, você pretende continuar explorando o terror psicológico e cotidiano ou sente vontade de experimentar outros caminhos literários?
Não fecho nenhuma porta. Reconheço, no entanto, que o terror — especialmente o psicológico — é o território onde minha escrita se expressa com mais força, seja ele ancorado no cotidiano ou em outras abordagens.


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